Encruzilhada # 3 Lívio Tragtenberg e João Bandeira


A nova Encruzilhada proposta pelo Improfest na Casa das Rosas reúne, no mês de julho, dois veteranos com trajetórias que se entrecruzam ao longo do tempo. De um lado, Livio Tragtenberg, compositor, autor de diversos livros, professor, pesquisador, músico multi-instrumentista, com vivências constantes no trânsito entre a poesia e a música de invenção. É célebre sua colaboração com Haroldo de Campos em diversas ocasiões como A Cena da Origem, espetáculo dirigido por Bia Lessa no saudoso Teatro Mars com Giulia Gam e Beth Coelho (1989), baseado nas traduções de Haroldo para o Bereshit, a gesta da origem e o Livro do Gênese. Lívio, juntamente com Wilson Sukorski, é autor de uma “anti-ópera”, talvez uma “meta-ópera” ou coleção de poemas de Décio Pignatari, o terceiro membro da tríade que produziu Temperamental , apresentada ao vivo e registrada em CD (1993), um dos mais radicais experimentos da dupla junto a outro poeta. Me lembro também da exibição de “São Paulo, sinfonia da metrópole” dos irmãos Kemény, na cola do outro, de Berlim, da mesma época (Walter Ruttman, Berlim, sinfonia de uma metrópole, 1927) em que os ventiladores usados na Cinemateca Brasileira ecoavam Georges Antheil e Ezra Pound e sua ambiciosa ideia de colocar motores de avião em cena. Livio desenvolve um projeto extraordinário com músicos de rua (Neurópolis) que tem se tornado um oriente para uma experiência musical livre.

De outro lado, João Bandeira, poeta mas não menos implicado com a música, tendo diversas vezes trabalhado conjuntamente com músicos como Cid Campos e Arnaldo Antunes, fazendo a ponte entre a poesia, a voz, o canto. Numa vereda multidisciplinar que ainda inclui a companhia de artistas visuais também poetas (Lenora de Barros, Walter Silveira), João se pôs no caminho desse “cantofalado” que de algum modo tornou possível a volta de uma tradição de oralização de poesia que se perdeu no Brasil. Autor de Quem quando queira (poemas, Cosac&Naify, 2015) entre outros, é também um pesquisador incansável, com intenso interesse na formação do contemporâneo a partir das linhas mestras construídas nas artes brasileiras dos anos 50 e 60. Sua pesquisa - juntamente com Lenora de Barros - sobre o grupo ruptura, a poesia concreta e a arte construtiva brasileira do período, realizada no início do século 21, é uma referência incontornável para quem estuda o tema. Recentemente ele voltou a um momento subsequente, envolvendo os enigmáticos e agitados anos de 65 a 68, com uma exposição singular e excepcional (Entre construção e apropriação, SESC Pinheiros, 2018).

A expectativa dessa Encruzilhada é grande porque repleta de repertórios, de longas vivências. São dois artistas maduros, no auge de sua atividade criativa que aceitam gentilmente o desafio de partir para mais uma aventura do desconhecido. Embora tragam seu material, é o encontro dessas histórias que deve chamar a atenção do público. As surpresas decerto serão muitas.

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