Improfest Encruzilhada 2019

09.03.2019

 

De cruzamentos está feito o mundo das artes ao vivo, desde sempre. De choques e propulsões que geram misturas novas de antigas práticas.

 

A poesia está imemorialmente ligada ao canto. O verbo grego que deu em poesia era aquele dedicado a representar o ato, o fazer. Nas outras tradições não-ocidentais, muitas vezes a poesia é um dizer que faz acontecer.

A música nasce do mélos, de um fio condutor que, no início, pode ser apenas um som que se propaga e, com isso, casa-se com outros, sugerindo harmonias e contrastes.

 

Música e poesia, portanto, mesclam-se na aurora dos tempos humanos. Uma nascendo com a vontade de dizer e outra com o soar dizendo. Quase o mesmo alvo.

 

Contemporaneamente progride o interesse nas coisas que acontecem diante de nossos olhos, já que tudo pode ser revisto, repaginado, reproposto. Mas mesmo a transmissão de fatos ao vivo carece daquela dimensão de cuja consciência nos apoderamos justamente nesse mundo de interconexões. O diabo é que percebemos que, embora multiplamente interligados, nada substiui um da sein, um lá estar que os filósofos existencialistas já haviam, em outro contexto, discutido profundamente. Parece também urgente perceber uma densidade da experiência no contraste com as formas telematizadas, sensíveis apenas ao olhar e ao ouvir.

 

O que nos leva, necessariamente à conclusão importante: nem música nem poesia dispensam esse complexo de outros sentidos que somente conseguimos usufruir em presença. Arte ao vivo.

A enfatizar tamanha e paradoxal transformação (paradoxal porque também é uma retomada da mais ancestral das tradições) estão aí o spoken word e o improviso livre em música. Ambas as práticas, tais como são, surgiram dos desdobramentos, nos anos 60 do século passado, de uma poesia falada que trafega dos beatniks ao hippies, aos punks, ao hip-hop e atravessa eras fazendo elo com outras formas de fala/canto improvisados - feitos na hora - que se praticam ao redor do planeta, entre índios, negros e mestiços de todas as periferias. E de uma música que elevou o improviso ao padrão mais extraordinário - o jazz e o blues - e depois deu régua e compasso para novos criadores, em fronteiras que exploram o ruído (noise), o anti-ruído (se isso for possível), o som e o impossível silêncio. Improviso livre em música, hoje, é uma tribo. O spoken word, o slam, é outra. Sabemos que as novas sínteses, como disse acima, nascem dessas misturas. Aproveitando aquele lugar que é das entidades da rua em que se dão as ofertas ao povo que lhe governa, sugerimos uma encruzilhada para que duas formas da voz tão profundamente assentadas na performance, na presença, no ao vivo, se encontrem. Ao público cabe testemunhar o que esse choque vai produzir.

 

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Roberta Estrela D'Alva

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