Otomo no Improfest

11.11.2017

O mesmo Otomo Yoshihide que faz música aplicando as agulhas dos gira-discos em objectos vários e que toca a guitarra como se fosse um simples gerador de som, não um instrumento com uma história que lhe definiu os usos lexicais, é aquele que, como etnomusicólogo, estudou a fundo não só a música popular brasileira como esse dificilmente definível factor que marca de brasileiridade qualquer prática musical, mesmo quando o propósito é transcender todas as especificidades musicais do mundo – uma característica, designadamente, da chamada “música livremente improvisada”. Nesta vinda a S. Paulo, Otomo sabe que vai encontrar no “som” criado com Marco Scarassatti, Paulo Hartmann e António “Panda” Gianfratti elementos desse Brasil profundo que tanto o fascina.

 

Mais: Otomo sabe antecipadamente que o que descobrir nunca será óbvio, explícito ou directo e que dessa circunstância resultará o interesse maior do empreendimento. Otomo nunca aceitou percorrer os caminhos mais fáceis, logo começando pela sua recusa a submeter-se a géneros ou estilos e aos respectivos léxicos e gramáticas.

 

O Brasil de que vai à procura é o que poderá despontar dos neo-instrumentos inventados por Scarassatti, da guitarra artilhada de Hartmann, da percussão de “Panda” ou quiçá dele próprio, numa leitura que lhe venha da distância.

 

Um Brasil disseminado pelas tramas que se urdirem e dissolvido nos fluxos gerados, não um Brasil nação, de postal turístico, mas um Brasil humano, de gente com expressões e cores de alma que são só seus.

 

Um Brasil que não se anuncia, mas que É, subterraneamente, na música. Por tudo isto, este encontro fará história.

 

Rui Eduardo Paes:
Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt.

 

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